
O avanço dos cortes obrigatórios na geração de energia renovável no Brasil expôs um desequilíbrio estrutural que já provoca retração de investimentos, renegociação de financiamentos e cancelamentos de projetos.
Em um momento de incerteza nacional e prejuízos acumulados, Mato Grosso do Sul segue caminho oposto e confirmou um pacote de R$ 5,12 bilhões para implantar três megausinas solares que vão elevar em 45% a potência instalada do Estado.
O contraste entre os dois cenários mostra como a crise energética brasileira convive, simultaneamente, com a expansão planejada e acelerada do Estado.
Reportagem publicada pelo jornal O Globo descreve o quadro nacional como “inusitado”, porque, pela primeira vez, o País precisa cortar a produção de energia solar e eólica, já que a rede elétrica não suporta a oferta excedente.
Os números revelam a profundidade do problema. Entre janeiro e agosto, 18,5% de toda a geração renovável produzida no País foi cortada pelo Operador Nacional do Sistema (ONS).
Isso significa que 4,3 mil gigawatts-hora (GWh) deixaram de ser gerados, volume 230% maior do que o registrado em todo o ano de 2024, e suficiente para abastecer o estado do Paraná por um mês inteiro.
A magnitude dos cortes tem levado empresas a suspender empreendimentos, a revisar cronogramas e a cancelar contratos já assinados. “Nos piores casos, temos visto cancelamentos de alguns projetos”, afirmou Francisco da Silva à reportagem, diretor da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica).
De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Rodrigo Sauaia, em alguns parques solares com menos de um ano de operação, o corte chega a 70% de sua geração.
“Não é justo que esses geradores sejam punidos financeiramente com esse prejuízo, que está pondo em risco o pagamento dos compromissos financeiros das empresas, com os seus fornecedores, com as suas instituições, com os seus financiadores e até mesmo internamente, com a sua estrutura, sua equipe. Como é que você faz para pagar os custos e a operação se as empresas estão tendo, em média, um terço do seu faturamento inviabilizado?”
ESTADO
Enquanto isso, o governo de Mato Grosso do Sul anunciou três megausinas solares da Casa dos Ventos, instaladas em Campo Grande, Paranaíba e Paraíso das Águas. O investimento totaliza R$ 5,12 bilhões, e dois empreendimentos entram em operação já em junho e julho de 2026. A terceira usina será conectada em setembro de 2027.
A dimensão dos projetos coloca MS em destaque nacional. “Sozinhas, essas três usinas farão aumentar em 45% a potência instalada do Estado e representam um crescimento de 8% em nível de Brasil”, afirmou o titular da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Jaime Verruck.
Ele reforça que a energia é um dos pilares para os R$ 105 bilhões em investimentos privados previstos no Estado. “A oferta de energia é um dos requisitos fundamentais que os empresários procuram antes de investir. Esse projeto se insere perfeitamente no plano de desenvolvimento que o governo traça”, disse.
A capacidade instalada revela o porte dos empreendimentos: Usina Rio Brilhante (Campo Grande), 491 megawatts (MW), com mais de 1,1 milhão de módulos; Projeto Solar Seriemas (Paranaíba), 400 MW; e Projeto Solar Paraíso (Paraíso das Águas), 640 MW, o maior dos três.
Ainda conforme a gestão do Estado, as obras devem empregar mais de 4 mil trabalhadores, com licenciamento já concedido pelo Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) e R$ 25 milhões destinados à compensação ambiental.
Para a Casa dos Ventos, o avanço em MS representa expansão estratégica. “É um incremento importante na matriz elétrica do Estado, o que acelera a transição energética brasileira”, afirmou Thiago Rezende, diretor da empresa.
Conforme dados da Absolar, Mato Grosso do Sul é o oitavo maior gerador de energia solar fotovoltaica do Brasil, com potência instalada de 1.597,7 MW.
INSEGURANÇA
No restante do País, o panorama é inverso. O curtailment, como é chamado o mecanismo que força o desligamento de usinas renováveis para proteger o Sistema Integrado Nacional (SIN), transformou-se em um dos maiores desafios do setor elétrico nacional.
Estados como Minas Gerais, Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco concentram a maioria dos cortes. Segundo Donato Filho, diretor da Volt Robotics, “só em agosto, 57% da energia renovável foi cortada por excesso de geração”.
Além das perdas físicas, o impacto econômico é crescente. A Absolar e a Abeeólica projetam que os cortes somam R$ 6,6 bilhões em perdas entre 2024 e 2025, número que deve aumentar porque empresas relatam interrupções ainda mais altas em setembro.
Quando são “desligadas”, usinas eólicas e solares são obrigadas a comprar energia no mercado livre para cumprir seus contratos de fornecimento a clientes, gerando prejuízos.
Para Edvaldo Santana, ex-diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), os cortes seguirão até 2035.
Relatórios financeiros confirmam esse cenário. A Auren Energia registrou queda de 1,3% na geração total e curtailment de 33,1% na energia solar, reduzindo seu Ebitda em 10,4%. A companhia reforça que a instabilidade afeta a previsibilidade e encarece a operação.
No mesmo sentido, a H2-CCS Network calcula que o setor renovável perdeu R$ 1,7 bilhão só entre janeiro e agosto deste ano. Em junho, a Megawhat registrou que 27,8% da geração solar centralizada foi desperdiçada.
Para Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras e chairman do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), o Brasil vive uma contradição ao promover cortes após ampliar com sucesso a participação de eólicas e solares na matriz elétrica, e tem risco de aumentar ainda mais o custo da energia.
“Esse paradoxo encarece a conta, pressiona subsídios e alimenta a narrativa equivocada de que as renováveis atrapalham a rede. O problema não está nas fontes, mas na falta de flexibilidade do sistema elétrico e na ausência de sinais econômicos para aproveitá-la. É preciso acelerar soluções digitais e novas ferramentas de gestão”, disse.
MEDIDA
A Medida Provisória nº 1.304/2025, aprovada em outubro, tornou-se a principal aposta para mitigar parte das perdas.
O texto prevê reembolso dos cortes de geração relacionados à confiabilidade do SIN, retroativo a setembro de 2023; definição de conceitos específicos para cortes por sobreoferta, o que pode abrir espaço para ressarcimentos adicionais; e diretrizes para renovação de concessões hidrelétricas.
O setor ainda discute o risco de repasse desses custos às tarifas. A Abradee, que reúne distribuidoras, alerta que “a tarifa já é alta, e falar em novos aumentos vai reduzir a competitividade de toda a economia”, disse o diretor executivo Ricardo Brandão.
A MP ainda depende de sanção presidencial e regulamentação.
Por SÚZAN BENITES
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