
O primeiro contato costuma parecer inofensivo. Uma conversa em um jogo online, um elogio em uma rede social, um pedido de amizade. Aos poucos, o diálogo vira confiança e depois pressão, chantagem e medo. Esse é o caminho mais comum dos casos de aliciamento virtual de crianças e adolescentes investigados pelas autoridades em Mato Grosso do Sul, um tipo de crime silencioso que acontece dentro de casa, diante de telas que fazem parte da rotina familiar.
Segundo o delegado Sérgio Macedo, da Delegacia de Repressão a Crimes Cibernéticos da PF (Polícia Federal), o ambiente digital se tornou um dos meios utilizados por abusadores para se aproximar das vítimas. Na internet, adultos se passam por crianças ou adolescentes, prática conhecida como grooming, para conquistar a confiança e convencer os menores de 18 anos a enviar imagens com pouca roupa ou nus. Depois, passam a exigir novos envios por meio de ameaças.
Em 2025, dois casos desse tipo foram registrados pela PF em Mato Grosso do Sul e as famílias foram contatadas. Um dos investigados, morador do interior do Estado, mantinha contato com crianças locais e também de outros países. Por envolver menores, os processos tramitam em segredo de Justiça.
Crimes virtuais - Somente em 2025, foram instaurados 40 inquéritos relacionados a crimes cibernéticos de abuso sexual infantojuvenil em Mato Grosso do Sul. O número é 39% menor que em 2024, quando 66 inquéritos foram instaurados. Os dados inéditos foram obtidos a partir de informações públicas analisadas pela agência Fiquem Sabendo, organização sem fins lucrativos especializada em transparência pública, que apura dados públicos por meio da Lei de Acesso à Informação.
Policial federal durante o trabalho. (Foto: PF/Divulgação)
O levantamento mostra que em Mato Grosso do Sul o crime cibernético relacionado ao abuso infantojuvenil tem o seguinte panorama:
2025
40 inquéritos instaurados
28 operações realizadas
11 prisões em flagrante
4 prisões preventivas
2 vítimas resgatadas
31 cumprimentos de mandados de busca e apreensão
2024
68 inquéritos instaurados
46 operações realizadas
13 prisões em flagrante
3 vítimas resgatadas
52 cumprimentos de mandados de busca e apreensão
Outro ponto destacado é que cada inquérito pode reunir diversas condutas criminosas, envolver mais de uma vítima e também vários suspeitos. Na prática, isso significa que o número real de crimes investigados pode ser maior do que o total de procedimentos formalmente abertos.
Como é definida a investigação - O delegado Macedo explica que nem todo crime virtual contra crianças é investigado pela mesma instituição. Quando o material de abuso é publicado em ambientes abertos da internet, acessíveis globalmente, o caso é tratado pela Justiça Federal e é investigado pela Polícia Federal.
Já situações restritas, como conteúdos compartilhados apenas entre amigos em perfis fechados, ficam sob responsabilidade da Polícia Civil.
No âmbito da PF, há ainda cenários mais complexos, como redes que utilizam programas de P2P (compartilhamento ponto a ponto) ou bancos de dados hospedados em outros países, sem servidor central. Segundo Macedo, há ainda registros de abusadores que pedem imagens das vítimas e as distribuem em sites abertos ou na chamada dark web.
Apesar da gravidade dos casos virtuais, conforme Macedo, nunca houve registro, no Estado, de criança atraída pela internet e sequestrada para fins de abuso sexual.
Mãe Thais Campos supervisiona filho durante jogo online em casa. (Foto: Paulo Francis)
Várias plataformas - O delegado explica que os criminosos não usam um aplicativo específico. As abordagens podem ocorrer em redes sociais populares, como o X e o Instagram; serviços de mensagem do Facebook e também em ambientes de jogos online, como o Discord.
Escola como defesa - Diante desse cenário, desde 2025, a Polícia Federal realiza campanhas de prevenção em escolas de Campo Grande, com foco em professores, crianças e adolescentes. O objetivo é orientar sobre os riscos, ensinar a identificar abordagens suspeitas e evitar que estudantes se tornem vítimas, seja de exploração sexual, seja de golpes virtuais.
Crime hediondo - A violência sexual contra crianças e adolescentes é classificada como crime hediondo desde 2014, o que reflete a gravidade desse tipo de delito e prevê punições mais severas.
A repressão policial, no entanto, é apenas parte do enfrentamento. A principal barreira continua sendo a prevenção dentro de casa. A orientação é que pais e responsáveis acompanhem o que crianças e adolescentes fazem online, observem mudanças de comportamento e mantenham diálogo constante sobre os riscos das interações virtuais. Conforme o delegado Macedo, a dica de segurança é dar “liberdade, mas sob supervisão dos responsáveis”.
A presença e a vigília são estratégias adotadas pela mãe Thais Campos. Sempre que o filho Eduardo quer jogar com os amigos, ela estipula apenas uma hora de brincadeira e usa a televisão da sala no viva voz para que possa acompanhar a comunicação entre as crianças.
Denúncias sobre crimes de abuso sexual infantil podem ser feitas pelo canal de comunicação de crimes no site da Polícia Federal.
Por Inara Silva
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