
A eventual decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas estrangeiras abriu um debate que vai muito além da segurança pública. Se confirmada, a medida mudaria radicalmente o enquadramento internacional dessas facções — com impactos potenciais sobre cooperação policial, sistema financeiro, soberania e até a dinâmica militar nas fronteiras brasileiras.
A discussão tem repercussão no continente todo e efeito direto em Mato Grosso do Sul, onde extensas fronteiras com Paraguai e Bolívia — disputadas pelas duas facções — concentram algumas das principais rotas da cocaína andina rumo ao Sudeste brasileiro e aos portos de exportação, especialmente para Europa e Estados Unidos.
Corumbá, na fronteira com a Bolívia, e cidades como Ponta Porã e Bela Vista, na divisa com o Paraguai, funcionam como portas de entrada de drogas, armas e dinheiro ilícito. A geografia favorece a logística clandestina: fronteira seca e porosa, vastas áreas rurais pouco povoadas e, no caso do Pantanal, regiões alagadas de difícil fiscalização.
Nesse cenário, a hipótese de enquadramento como terrorismo acende alertas sobre possíveis pressões externas e mudanças profundas na cooperação internacional.
Divergência política no estado
Entre parlamentares sul-mato-grossenses, as posições são opostas, um sinal de que direita e esquerda vão, novamente, se colocar nos polos, às vésperas de uma eleição em que um dos temas centrais é segurança pública.
O deputado federal Dagoberto Nogueira (PSDB) avalia que a medida pode representar interferência externa sensível e exigiria resposta institucional brasileira caso se concretize. Segundo ele, o país vem adotando medidas para enfrentar as facções, como endurecimento de penas para lideranças, manutenção de chefes criminosos em presídios federais de segurança máxima e fortalecimento da estrutura judicial. “Esse cara (Donald Trump) não pode interferir no mundo inteiro. Estamos achando que a proposta não passa lá (no Congresso americano). Aqui não é Venezuela”, diz Dagoberto. Caso seja aprovada, ele acha que o Congresso e governo não ficarão e braços cruzados. “Vai ter reação no Brasil”.
O parlamentar cita projeto de criação de seis novas varas da Justiça Federal em Mato Grosso do Sul, da qual é relator — iniciativa associada ao combate ao crime nas fronteiras com Paraguai e Bolívia — além de unidades na Amazônia. A ampliação tende a acelerar investigações e fortalecer a atuação integrada de órgãos como Polícia Federal e Receita Federal com estruturas de segurança dos países vizinhos. A cooperação com agências norte-americanas no combate ao narcotráfico, que ocorre há décadas, segundo ele, deveria ser fortalecida.
Nogueira também enfatiza a importância do combate financeiro às organizações criminosas, destacando o bloqueio de recursos ilícitos como uma das formas mais eficazes de enfraquecê-las sem alterar o enquadramento jurídico.
Em posição oposta, o deputado Luiz Ovando (PP-MS) apoia a classificação como terrorismo e minimiza preocupações com soberania. Para ele, a chave do problema está na dimensão econômica das facções.
“Se a gente não barrar essa movimentação financeira, nós estaremos enxugando gelo”, afirmou. Na avaliação do parlamentar do PP, o enquadramento permitiria bloquear fluxos globais de recursos e asfixiar economicamente as organizações sem necessidade de confrontos armados. “Basta você fechar a movimentação econômica que você asfixia a organização”, disse.
Ovando também descarta ameaça externa, argumentando que, diante da interdependência global e da incapacidade de um país agir isoladamente contra redes transnacionais, uma ação liderada pelos Estados Unidos poderia interromper os fluxos financeiros que sustentam essas estruturas. Ele afirma que o Brasil perdeu a guerra contra facções. “A manutenção da soberania é fictícia, uma soberania volátil, praticamente teórica, diante da incapacidade de frear esse tipo de situação.”
Doutrina Miller
A proposta ganhou impulso após Trump encaminhar ao Congresso dos EUA pedido para avaliar a designação de grandes organizações criminosas transnacionais como entidades terroristas estrangeiras. A medida abriria caminho para sanções econômicas ampliadas, restrições financeiras globais e eventual uso de instrumentos típicos de segurança nacional.
Esse movimento reflete uma mudança estratégica mais ampla: o crime organizado passa a ser visto não apenas como problema policial, mas como ameaça à estabilidade internacional, ao comércio e à segurança dos próprios Estados Unidos.
A nova abordagem foi explicitada pelo assessor de segurança interna da Casa Branca, Stephen Miller, em reunião com ministros da Defesa e generais latino-americanos na Flórida.
Segundo ele, o combate policial fracassou. “Aprendemos, após décadas, que não há solução de justiça criminal para o problema dos cartéis”, afirmou. “Essas organizações só podem ser derrotadas com poder militar.”
A fala sugere uma mudança de paradigma: do enfrentamento policial para uma lógica de segurança nacional baseada em poder coercitivo e força letal.
Para analistas, a proposta também se insere na disputa geopolítica por influência no continente e no controle de riquezas estratégicas. A classificação de terrorismo daria carta branca para execuções sumárias, como se viu contra venezuelanos nas águas do Caribe.
O que mudaria na prática
Especialistas consideram improvável uma intervenção militar direta no Brasil. O cenário mais plausível envolve pressão indireta e militarização do entorno, com operações intensificadas em países vizinhos.
Para Mato Grosso do Sul, isso poderia significar ações mais robustas no lado paraguaio e maior controle sobre rotas bolivianas que convergem para o Pantanal — com repercussões inevitáveis em território brasileiro.
Também ganhariam peso instrumentos discretos, como vigilância por satélite, drones de alta altitude, inteligência eletrônica e monitoramento financeiro internacional.
Sanções econômicas seriam outro instrumento poderoso. A designação como terrorismo permitiria congelamento global de ativos, exclusão do sistema financeiro internacional e punições a empresas ligadas às facções.
Autoridades brasileiras resistem à lógica militarizada. O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, tem defendido que o enfrentamento do crime transnacional deve ocorrer por cooperação policial, inteligência e investigação financeira.
No ordenamento jurídico nacional, PCC e CV são organizações criminosas, não terroristas. A legislação brasileira exige motivação ideológica ou política para esse enquadramento.
As Forças Armadas não exercem função policial permanente. Operações na fronteira são episódicas, subordinadas a limites constitucionais e voltadas ao apoio a outros órgãos. Qualquer ação externa unilateral seria interpretada como violação de soberania.
Nova segurança regional
A discussão reflete uma transformação na percepção global do crime organizado. Redes capazes de operar em vários países e movimentar bilhões passam a ser tratadas como ameaças sistêmicas — não apenas como questão policial.
Para o Brasil, porém, essa abordagem esbarra em limites constitucionais e na tradição de segurança pública, que evita empregar militares contra facções e privilegia a cooperação entre agências.
Autoridades ressaltam ainda que, diferentemente de organizações terroristas clássicas, o PCC recruta majoritariamente indivíduos em situação de vulnerabilidade social e econômica, sem mobilização ideológica. A base operacional inclui desde jovens de periferia até trabalhadores informais aliciados para transporte de drogas, vigilância, logística ou lavagem de dinheiro.
Nas rotas internacionais, multiplicam-se as chamadas “mulas humanas” — pessoas que ingerem cápsulas de cocaína para atravessar fronteiras em troca de pagamentos relativamente baixos, correndo risco real de morte. Para a organização, funcionam como mão de obra descartável dentro de uma cadeia altamente lucrativa.
O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, referência nacional no combate ao PCC, afirma que o grupo é essencialmente voltado ao lucro e não possui motivação ideológica, religiosa ou política. Segundo ele, trata-se de uma empresa criminosa estruturada, dedicada ao tráfico e à lavagem de dinheiro, que utiliza a violência para proteger mercados e rotas, não para impor agendas ou gerar terror indiscriminado.
O maior obstáculo para barrar a classificação vem da força e da arrogância: os Estados Unidos, especialmente no governo Trump, impõem ao mundo sua doutrina de extraterritorialidade, sem levar em conta opiniões contrárias ou os efeitos desastrosos de suas decisões.
Por Vasconcelo Quadros, de Brasília
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