Terça-Feira, 28 de Abril de 2026

DATA: 28/04/2026 | FONTE: campograndenews Bullying vira caso de polícia e leva 78 vítimas à Justiça em 2 anos Na escola ou fora dela, casos de intimidação vão de "brincadeira de mau gosto" a crime

Dentro ou fora da escola, o risco é o mesmo, mas é na área educacional que o bullying emerge na sua pior forma e muitas vezes, gerando até registros policiais e ações judiciais, porque vira crime. No ano passado, 59 pessoas procuraram a Justiça por terem sido vítimas da chamada intimidação sistemática. Em 2026, até o final de março, já são 19 pelo mesmo motivo, totalizando 78 em dois anos.

Os registros do serviço Justiça em Números revelam que 17 processos do assunto foram julgados no ano passado e nove este ano. Em um dos casos a que a reportagem teve acesso, aluno de uma escola privada de 16 anos na época dos fatos (2024), relatou aos pais que estava sendo intimidado na escola e também através de mensagens em grupos de redes sociais.

O menino era vítima de xingamentos devido à sua aparência, ao cabelo e ao comportamento retraído, sendo chamado de “estranho”, “esquisitão” ou “cabelo de palha”. Em outra ocasião, recebeu, em um aplicativo de mensagens, uma foto dos colegas de sala que zombavam dele e faziam, em grupo, o sinal de silêncio. O jovem se sentiu ameaçado e, então, resolveu contar à mãe tudo pelo que vinha passando desde 2023.

O caso foi levado à escola, que teria realizado palestras e dado advertência aos colegas, entretanto, as intimidações permaneceram e então, a Justiça foi acionada. Não há sentença e a família pede R$ 30 mil em danos morais à escola e aos pais dos colegas que faziam o bullying.

A delegada Daniela Kades, titular da Depca (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente) afirma que é muito subjetivo saber quando vale ou não levar os casos de bullying à polícia e à Justiça. “Os boletins de ocorrência que são registrados pelas vítimas tem casos graves e outros menos graves, mas essa avaliação é muito particular de quem sofreu a agressão”, comenta.

Fonte: Justiça em Números/DataJud CNJ

Kades destaca que as reações diante desses atos também variam e que as vítimas podem desenvolver problemas psicológicos e emocionais, se automutilar, arrancar os cabelos e até se matar. “É preciso dizer que o bullying muitas vezes se direciona para outras frentes, como racismo ou intolerância religiosa, por exemplo” .

Para ela, o fato de o ambiente escolar ser onde mais ocorrem essas intimidações decorre do tempo que as crianças e os adolescentes passam uns com os outros, o que hoje vai além da sala de aula e alcança o ambiente virtual. A delegada avalia que os jovens passam mais tempo na escola — grande parte em período integral — e que esse contato com os colegas se estende em casa, por meio das redes sociais. “São muitas horas juntos”, define.

Daniela, junto com outros servidores da Depca, é responsável por um projeto de palestras em escolas que pretende prevenir e alertar sobre casos de bullying e cyberbullying. Em 2026, o grupo já realizou ao menos 20 desses eventos nas escolas. “A principal meta é fazer o aluno que é vítima saber identificar que ele está sendo vítima e buscar ajuda”, detalha.

Enfrentamento - Coordenadora de psicologia educacional de SED (Secretaria de Estado de Educação), Paola Lopes Evangelista avalia que a maior arma de enfrentamento ao bullying é saber identificar essa violência.

A especialista destaca que o fenômeno se revela na escola com maior frequência porque é um espaço de socialização em que muitas culturas e valores se encontram. “É a escola que recebe as questões e costumes que a sociedade atravessa, como o discurso de ódio, por exemplo, e ali estão adolescentes que ainda não sabem fazer um juízo dos fatos como um adulto”.

Delegada Daniela Kades em palestra de sensibilização em escola este ano. (Foto: Polícia Civil)

Lopes evidencia que o bullying tem características que precisam ser identificadas, como a repetição dos atos de intimidação, precisa haver a real intenção de ferir e humilhar e é feito longe das autoridades escolares. Ela analisa que uma forma de medir a gravidade da intimidação é avaliar o quanto aquela situação faz a pessoa sofrer.

“A vítima precisa primeiro compreender que essa situação de violência sistemática não é normal e procurar ajuda. Não é deixando de ir à escola ou de falar sobre o assunto que o ato vai cessar. Precisa levar para a gestão escolar”, diz.

A coordenadora comenta que as escolas estaduais contam com diversos serviços que capacitam os professores e gestores a perceber essas situações e a lidar com elas. Nelas, os profissionais aprendem que é preciso acolher a vítima, acolher o agressor, entender qual é a motivação do ato e aplicar medidas pedagógicas e, claro, buscar as famílias para fazer esse enfrentamento. “Quem se sentir ofendido e violentado pode formalizar uma denúncia. É um direito, porque há leis que criminalizam o bullying”, defende.

 

Por Lucia Morel

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