
Num cenário em que as vendas de máquinas agrícolas produzidas no Brasil têm registrado queda ano após ano, as importações da Índia e da China continuam a crescer em ritmo acelerado, preocupando as fabricantes que atuam no mercado brasileiro.
Em 2025, as importações atingiram um patamar recorde de 11 mil unidades, 17% acima do ano anterior. Da Índia vieram 6 mil unidades, o que fez do país o líder no ranking de modelos estrangeiros, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). A China ficou em segundo lugar, com 3,9 mil unidades, e chamou atenção pelo forte crescimento em relação a 2024: a alta foi de 85,7%.
No primeiro trimestre de 2026, a alta nas importações ganhou mais força, conforme os dados da Anfavea. Foram 3,35 mil unidades, alta de 48,4% sobre as 2,26 mil máquinas importadas nos três primeiros meses de 2025. Do total deste ano, 1,7 mil vieram da Índia, 1,5 mil da China e 100 da Itália.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_afe5c125c3bb42f0b5ae633b58923923/internal_photos/bs/2026/V/I/KDktPDROu55rvE77MO5w/arte30agr-101-maquinas-b12.jpg)
Igor Calvet, presidente da Anfavea, evita fazer projeções para este ano, mas diz que as perspectivas não são positivas. Ele enxerga a indústria ainda mais pressionada diante do crescimento acelerado de importações comparado ao das exportações. “Tivemos um incremento maior nas importações. São duas mil unidades de déficit entre importação e exportação”, diz.
As exportações do setor cresceram 5,7% entre janeiro e março deste ano. Foram 1,33 mil unidades exportadas, em comparação com as 1,26 mil máquinas exportadas no mesmo período de 2025.
Esse desequilíbrio entre importações e exportações “gera pressão sobre os fabricantes, a cadeia de fornecimento e os investimentos projetados para este ano”, afirma Calvet. Enquanto as importações avançam, as vendas de máquinas fabricadas no Brasil devem voltar a cair pelo quinto ano, segundo a Anfavea. A estimativa é de um recuo de 6,2% nas vendas internas em 2026, com 46,7 mil unidades comercializadas até o fim do ano.
Os dados abrangem informações sobre tratores e colheitadeiras e contemplam tanto empresas associadas à entidade, como AGCO e CNH Industrial, quanto não associadas, como a John Deere.
Alguns fatores explicam o avanço das máquinas importadas. Os produtos chineses e indianos têm vantagens em relação aos nacionais em escala, preço do aço e mão de obra, segundo um estudo do Boston Consulting Group, encomendado pela Anfavea. Com isso, o custo pode ser até 27% menor.
Andrea Serra, diretora tributária e de comércio exterior da Anfavea, lembra também que o atual cenário de juros altos tem estimulado os produtores a buscarem alternativas mais acessíveis fora do país. “Marcas da China e Índia ganharam espaço na relação de custo-benefício”.
O aumento das importações também se deveu ao aperto nas linhas de crédito tradicionais, o que faz o mercado olhar para fora em busca de opções, diz Serra. Para ela, o acesso ao crédito para a aquisição de máquinas continua sendo o fator decisivo. “Nacionalizar compras para licitações públicas seria uma forma de amenizar esse crescimento”.
Para Pedro Estevão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), o avanço das importações tem duas causas principais.
A primeira é a Lei de Liberdade Econômica (Lei 13.874/2019), que facilitou a entrada de produtos estrangeiros ao reduzir exigências burocráticas que antes funcionavam como filtro protetor da indústria nacional. E a segunda é o crescimento das chamadas “emendas Pix”, que repassam verbas federais diretamente a Estados e municípios sem vinculação de destino.
“Na licitação pública, não há nenhum dispositivo que dê preferência para produção nacional, o maior critério de decisão são preços. Os produtos importados, principalmente da China têm preços mais competitivos que os nacionais”, afirma.
Mas há desvantagens, segundo Bastos: não há rede de pós-venda estabelecida para máquinas importadas e a qualidade é inferior aos produtos nacionais.
Nesta quarta-feira (30/4) a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) informou, em evento na Agrishow, que a receita com as vendas de máquinas e equipamentos agrícolas no primeiro trimestre do ano caiu 16,4%, para R$ 12,8 bilhões. Considerando apenas o mês de março, houve alta de 9,4%, para R$ 4,7 bilhões. Os números consideram vendas no mercado interno e exportações.
A associação informou ainda que as importações de máquinas e implementos no trimestre caíram 5,3% em valor. A China continua a maior origem das importações brasileiras, segundo a Abimaq.
Por Marcos Fantin — São Paulo
26/03/2026
Mato Grosso do Sul projeta safra recorde com 5 bilhões de litros de etanol
19/02/2026
Produção cresce, preço cai e setor leiteiro entra em fase de ajuste no Brasil
10/03/2020
Determinadas e atuantes, mulheres se destacam no agro em MS
22/01/2020
Showtec: investimento em pesquisa potencializa agronegócio e safra de soja deve superar 10 milhões de toneladas em MS