
O crescimento da frota de veículos eletrificados em Mato Grosso do Sul está ampliando a demanda por pontos de recarga em residências, condomínios e estabelecimentos comerciais, mas também acende um alerta para a necessidade de instalações elétricas adequadas. Entre janeiro e maio de 2026, foram vendidos 1.280 veículos eletrificados leves no Estado, alta de 67,75% em relação às 763 unidades comercializadas no mesmo período de 2025, conforme a ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico).
Mato Grosso do Sul possui atualmente 7.366 veículos eletrificados distribuídos pelos 79 municípios. Campo Grande concentra 4.684 unidades, o equivalente a 63,59% da frota estadual.
Para o Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul, o avanço da eletromobilidade exige atenção não apenas aos veículos e às baterias, mas também às condições das instalações utilizadas durante a recarga. Uma das principais preocupações neste momento, segundo o capitão Gabriel Ferreira Lopes, especialista em combate a incêndio urbano, está nos equipamentos de micromobilidade, como bicicletas, patinetes, scooters e motos elétricas de menor porte.
Esses equipamentos costumam ser levados para dentro das residências e, muitas vezes, permanecem conectados durante a madrugada. “O carro normalmente fica na garagem, em um ambiente ventilado e utiliza um carregador dedicado. Já a bicicleta elétrica ou o patinete acabam indo para dentro de casa e, muitas vezes, ficam carregando enquanto a família dorme. É aí que mora a principal preocupação”, explica o capitão.
Segundo ele, o risco envolve uma combinação de fatores, como instalações elétricas antigas, tomadas inadequadas, carregadores desgastados e ausência de dispositivos de proteção. Quando associados, esses elementos aumentam o risco de superaquecimento e de um princípio de incêndio.
Carregador exige circuito exclusivo
A instalação de um carregador para veículo eletrificado não deve ser tratada como a simples inclusão de uma tomada na garagem. Conforme a orientação apresentada pelo Corpo de Bombeiros, o equipamento deve ser ligado a um circuito exclusivo, dimensionado de acordo com sua potência e protegido contra sobrecarga, choque elétrico e surtos.
Instalações para recarga de veículos elétricos devem seguir as normas ABNT NBR 5410 e NBR 17019, além das exigências do Corpo de Bombeiros previstas no Código Estadual de Segurança Contra Incêndio (Foto: Arquivo)
Na prática, o circuito precisa contar com DR (dispositivo diferencial residual), DPS (dispositivo de proteção contra surtos), cabeamento compatível com a corrente exigida e aterramento adequado.
“O carregador é uma carga elevada, semelhante à de um chuveiro elétrico. Quanto maior a potência do equipamento, maior será a corrente elétrica e, consequentemente, maior a necessidade de um dimensionamento correto da instalação”, afirma Gabriel.
Segundo o Corpo de Bombeiros, embora Mato Grosso do Sul ainda não possua uma norma específica para os sistemas de recarga de veículos eletrificados, as instalações devem observar a NBR 5410, que trata das instalações elétricas de baixa tensão, e a NBR 17019, voltada à infraestrutura elétrica destinada à alimentação de veículos elétricos.
Os projetos também precisam observar as normas técnicas do Corpo de Bombeiros editadas com base na Lei Estadual nº 4.335, de 2013, que institui o Código de Segurança Contra Incêndio, Pânico e Outros Riscos.
Avaliação começa pela capacidade do imóvel
O engenheiro eletricista Igor Visioli, sócio da empresa Fóton Energia, Segurança Eletrônica e Automação, explica que o primeiro passo para a instalação é verificar o consumo já existente no imóvel e avaliar se a rede interna e o padrão de entrada suportam a demanda adicional do carregador.
Depois dessa análise, o engenheiro elabora o projeto elétrico conforme as normas NBR 5410 e NBR 17019, com emissão de ART (Anotação de Responsabilidade Técnica).
Quando a capacidade disponível não é suficiente, torna-se necessária uma adequação para aumento de carga no ramal de entrada. Após a definição do carregador, é executado o circuito exclusivo, com disjuntor, DPS e aterramento dedicados. A última etapa envolve testes e comissionamento do equipamento.
De acordo com Visioli, o custo do serviço fica em torno de R$ 2 mil, mas pode aumentar dependendo das características do imóvel e da instalação. Entre os fatores que influenciam o valor estão a distância entre o quadro de distribuição e o ponto de recarga, a potência do equipamento e a necessidade de reforçar o aterramento, de adequar o quadro elétrico, de solicitar aumento de carga e de trocar o padrão junto à Energisa. Nos condomínios, o custo também pode incluir intervenções em áreas comuns.
Quando a instalação existente já suporta o carregador, o projeto e a execução podem ser concluídos em alguns dias, segundo o engenheiro. Caso seja necessário solicitar aumento de carga ou troca de padrão junto à concessionária, o processo pode ganhar de uma a três semanas adicionais, dependendo da complexidade do projeto e dos procedimentos de análise e vistoria.
Em condomínios, o prazo pode se estender caso a instalação dependa de aprovação em assembleia. Visioli explica que carregadores mais lentos, em muitos casos, podem ser instalados sem aumento da carga disponível. Já os equipamentos mais potentes podem exigir uma ampliação.
Para solicitar o aumento de carga, é preciso apresentar projeto elétrico com declaração de carga, conforme a NDU 001 (Norma de Distribuição Unificada) da Energisa.
Segundo o engenheiro, os proprietários de veículos elétricos e híbridos que pretendem carregar o automóvel em casa ainda formam a maior parte da procura pelo serviço.
Na sequência aparecem os condomínios, nos quais a infraestrutura elétrica é compartilhada e exige uma análise mais ampla. Empresas e comércios também começaram a buscar a instalação de carregadores como diferencial para clientes, especialmente em estacionamentos, centros comerciais e postos de combustíveis.
Para Visioli, a percepção é de que a expansão dos pontos particulares e públicos de recarga acompanha o crescimento da frota de veículos elétricos e híbridos no Estado.
Condomínios exigem análise de toda a demanda
Nos condomínios, o desafio aumenta conforme mais moradores passam a utilizar carregadores. O capitão Gabriel explica que o profissional responsável precisa avaliar toda a demanda energética da edificação. Dependendo da quantidade e da potência dos equipamentos, poderá ser necessário ampliar a capacidade de fornecimento da concessionária.
Segundo o capitão Gabriel Ferreira Lopes, instalações antigas, tomadas inadequadas e ausência de dispositivos de proteção aumentam o risco de superaquecimento durante a recarga (Foto: Anderson Viegas)
Além do projeto elétrico, a intervenção deve contar com responsabilidade técnica, identificação dos circuitos, aterramento e os dispositivos de proteção previstos nas normas.
Segundo Igor Visioli, a instalação em condomínio também precisa passar pela administração e, conforme o caso, pela assembleia. A colocação do equipamento sem essa autorização pode gerar problemas posteriormente.
Nas edificações sujeitas ao licenciamento do Corpo de Bombeiros, alterações relevantes na instalação elétrica devem atender às normas técnicas aplicáveis. Durante as fiscalizações, os militares verificam, entre outros pontos, a existência de responsabilidade técnica, dispositivos de proteção e a conformidade da instalação com a legislação de prevenção contra incêndios.
Caso sejam encontradas irregularidades, o estabelecimento poderá perder o certificado de vistoria e ficar sujeito às penalidades previstas na legislação estadual.
Extensões e adaptadores estão entre os erros
Entre os erros mais frequentes identificados pelo engenheiro estão o uso de carregadores rápidos em tomadas comuns, extensões ou adaptadores, além da instalação sem o correto dimensionamento da fiação e do disjuntor.
Outro problema é a ausência de aterramento adequado, condição que, conforme Visioli, pode até invalidar a garantia do produto em algumas marcas. O engenheiro também alerta para instalações feitas sem projeto e sem responsabilidade de profissional habilitado.
Uso de tomadas comuns, extensões e adaptadores está entre os erros mais frequentes na instalação de carregadores para veículos elétricos, segundo o engenheiro Igor Visioli (Foto: Arquivo)
Segundo ele, conforme entendimento do Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia), somente engenheiros eletricistas estão legalmente habilitados a instalar carregadores de veículos elétricos em edificações.
Baterias exigem resfriamento das células
A presença crescente de baterias de íons de lítio também exige preparação específica das equipes de emergência.
O Corpo de Bombeiros de Mato Grosso do Sul já participou de treinamentos para ocorrências envolvendo esse tipo de tecnologia e acompanha a evolução das técnicas utilizadas em outros estados e países.
Segundo o capitão Gabriel, as baterias podem entrar em um processo conhecido como fuga térmica, no qual a reação química continua produzindo calor e gases inflamáveis.
Nessas situações, o trabalho não se limita ao controle das chamas. O objetivo passa a ser resfriar diretamente as células da bateria, reduzindo a continuidade da reação e evitando que o incêndio se espalhe para veículos próximos.
Segurança da pessoa deve vir primeiro
Para o Corpo de Bombeiros, a prevenção permanece como a principal medida de segurança. Ao adquirir um veículo eletrificado, o consumidor deve considerar também a necessidade de adequar a instalação elétrica da residência, da empresa ou do condomínio.
No caso de bicicletas, patinetes e outros equipamentos de micromobilidade, a orientação é priorizar ambientes externos e ventilados, especialmente quando não existe circuito dedicado.
Em caso de princípio de incêndio, a primeira providência deve ser desligar a alimentação elétrica, desde que isso possa ser feito com segurança. O combate inicial pode ser realizado com extintores adequados para equipamentos energizados, preferencialmente dos tipos BC ou ABC.
O uso de água não é recomendado enquanto o equipamento permanecer energizado, porque pode colocar em risco a pessoa que tenta controlar as chamas. “Quanto mais cedo o incêndio for contido, menores são as chances de ele ganhar proporções maiores. Mas a segurança da pessoa vem sempre em primeiro lugar. Se não houver condições de agir, o correto é abandonar o local e acionar imediatamente o Corpo de Bombeiros”, conclui o capitão.
Por Anderson Viegas
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