
Enquanto a Ponte Bioceânica avança para a reta final das obras, Porto Murtinho começa a atrair investimentos privados que vão além da ligação rodoviária com o Paraguai. Dois novos terminais portuários às margens do Rio Paraguai reforçam a aposta de transformar o município em um centro logístico para exportação e importação de cargas no Centro-Oeste.
A expansão ocorre em paralelo ao crescimento da movimentação de grãos na cidade, que já conta com operações da FV Cereais, e ao projeto de fortalecimento da Hidrovia Paraguai-Paraná, considerada estratégica para integrar Mato Grosso do Sul aos mercados do Atlântico e, por meio da Rota Bioceânica, também ao Oceano Pacífico.
Um dos investimentos é da Hidronave South American Logistics, empresa que adquiriu o antigo porto da APPM (Agência Portuária de Porto Murtinho), estrutura retomada pelo Governo do Estado após a caducidade da concessão anterior e leiloada em janeiro de 2025.
Segundo o prefeito Nelson Cintra (PSDB), a empresa investiu aproximadamente R$ 80 milhões na recuperação completa da área. "A Hidronave assumiu um porto que era do Estado. Fez uma grande reforma, adequou toda a estrutura para funcionar. O porto ficou muito bonito”.
O terminal passou recentemente por mais uma etapa para obtenção da autorização definitiva da ANTAQ (Agência Nacional de Transportes Aquaviários). A publicação no Diário Oficial da União da última sexta-feira (17.jul) habilitou o projeto apresentado pela empresa e encaminhou o processo para a análise de viabilidade locacional. Essa fase verifica se o local atende às exigências de navegabilidade, segurança e planejamento portuário antes da emissão da autorização definitiva.
Em nota enviada ao Campo Grande News, a ANTAQ esclareceu que a habilitação não representa autorização para implantação do terminal, mas apenas o cumprimento dos requisitos iniciais previstos na legislação. A agência informou ainda que o empreendimento já opera respaldado por uma autorização especial, válida por 180 dias desde 25 de junho, enquanto tramita a outorga definitiva.
Segundo Cintra, a Hidronave atua como operadora logística e não como compradora de mercadorias. "Ela trabalha com barcaças. Se alguém quiser exportar soja, por exemplo, pode contratar a Hidronave. Eles não compram matéria-prima, são prestadores de serviço."
De acordo com o prefeito, a empresa já opera no transporte hidroviário de minério produzido em Corumbá com destino à Argentina e ao Uruguai. A companhia possui participação brasileira e de um grupo grego que administra terminais portuários em diversos países.
Segundo terminal - O segundo investimento privado está sendo feito pela PTP Group, empresa argentina especializada em logística portuária e presente em diferentes pontos da Hidrovia Paraguai-Paraná.
O grupo escolheu Porto Murtinho para instalar um terminal multifuncional voltado à movimentação de grãos, fertilizantes e carga geral. O empreendimento será implantado em uma área total de 352,5 hectares, localizada às margens do Rio Paraguai, no quilômetro 2.322 da hidrovia. Na primeira etapa serão utilizados 9,9 hectares da área.
As informações técnicas apresentadas ao Governo do Estado mostram que o terminal foi dimensionado para movimentar 2,85 milhões de toneladas por ano, sendo 1,15 milhão de toneladas de grãos, 700 mil toneladas de fertilizantes e 1 milhão de toneladas de carga geral. O complexo contará com armazém para 20 mil toneladas, áreas para futura expansão de silos, pátios operacionais e estrutura para atracação de barcaças.
No site oficial da empresa, o empreendimento aparece como um terminal multipropósito em desenvolvimento. A estrutura prevê operação com embarcações fluviais, armazéns, tanques, pátios portuários e conexão direta com o mercado brasileiro pela Hidrovia Paraguai-Paraná.
Também consta capacidade estática para 40 mil toneladas de fertilizantes, 30 mil toneladas de grãos e 4,2 mil metros quadrados destinados à movimentação de carga geral.
Segundo Cintra, a empresa já obteve as principais licenças ambientais para iniciar a implantação. "Saiu a licença para desmatamento da área. Agora eles devem começar os trabalhos."
O prefeito estima investimento entre R$ 190 milhões e R$ 200 milhões e afirma que a construção deverá levar de dois a três anos. Cintra lembra que o projeto enfrentou um longo processo de regularização por envolver uma empresa estrangeira em área de fronteira. "Foi uma luta muito grande até conseguirem a autorização. Fui várias vezes a Brasília acompanhar esse processo”.
Integração - Para o prefeito, os investimentos representam uma mudança no perfil econômico de Porto Murtinho, que deixará de ser apenas o ponto brasileiro da Ponte Bioceânica para se tornar também um centro de transbordo de cargas. "Nós estamos preparando a cidade para ser o portal da rota. Aqui haverá um grande centro de transbordo”.
Segundo ele, a expectativa é que mercadorias destinadas ao mercado internacional possam ser consolidadas em Porto Murtinho antes de seguir viagem pela hidrovia ou pela malha rodoviária. A estimativa da prefeitura é que, com a Rota Bioceânica em funcionamento, o município passe a receber mais de mil carretas por dia.
Além de ampliar o escoamento da produção agrícola de Mato Grosso do Sul, a estrutura deverá atender operações de importação e exportação para países do Mercosul e outros mercados atendidos pela Hidrovia Paraguai-Paraná.
Por Mylena Fraiha
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