
Embora costume aparecer com menos destaque do que setores como celulose, bioenergia e frigoríficos, a mineração vem consolidando silenciosamente um dos ciclos mais consistentes de expansão da economia de Mato Grosso do Sul. Impulsionada pela demanda internacional por minério de ferro e manganês, a atividade ampliou produção, fortaleceu as exportações, multiplicou a geração de riqueza e praticamente triplicou o número de empregos formais nas últimas duas décadas.
Apesar de boa parte da produção mineral ter como destino o mercado externo, uma parcela expressiva dos recursos movimentados pelo setor permanece em Mato Grosso do Sul, segundo Jair Henrique Panucci, presidente do Sindiecol (Sindicato das Indústrias Extrativas de Corumbá) e empresário do Grupo Concreluz.
"Por mais que a receita da produção mineral seja em grande parte exportada, ela se transforma em custo, gasto de produção, aqui dentro do nosso Estado", afirma.
Segundo Panucci, entre 60% e 70% dos recursos ficam em Mato Grosso do Sul por meio de gastos com folha de pagamento, royalties, máquinas, investimentos, combustível e outros custos operacionais. Ele estima ainda que o setor mineral extrativista tenha movimentado cerca de R$ 12 bilhões entre 2020 e 2024.
Os números do Observatório da Indústria da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul) mostram a dimensão desse avanço. Entre 2006 e 2025, o volume exportado de minério de ferro e manganês passou de 2,89 milhões para 9,19 milhões de toneladas, um crescimento de 218%. No mesmo período, a receita obtida com as vendas externas saltou de US$ 98,5 milhões para US$ 436,5 milhões.
O impacto também aparece na economia estadual. O valor bruto da produção mineral aumentou de R$ 311,1 milhões para R$ 2,44 bilhões, evidenciando que a atividade deixou de ser um segmento secundário para ocupar posição estratégica na composição da riqueza industrial sul-mato-grossense.
Para o economista-chefe da Fiems, Ezequiel Resende, a mineração ainda recebe menos atenção do que merece diante da importância econômica que possui para o Estado.
"Muitas vezes as pessoas se esquecem, mas Mato Grosso do Sul também é um estado minerador. Temos um segmento extrativo mineral forte e consolidado, especialmente com minério de ferro e manganês."
Mais produção e mais empregos
A expansão do setor também foi acompanhada pelo crescimento da geração de empregos. O número de trabalhadores formais passou de 942, em 2006, para 2.825 em 2026, avanço de aproximadamente 200%.
O crescimento do emprego, no entanto, foi bem menor que o avanço da produção. Segundo Panucci, uma das explicações está na modernização das operações, com máquinas capazes de transportar volumes maiores e reduzir a necessidade de mão de obra em algumas etapas.
"O setor mineral tem investido muito em automação e equipamentos modernos. Temos aqui no Estado grandes indústrias minerais investindo mais de R$ 4 bilhões a R$ 5 bilhões em equipamentos que transportam uma carga nominal muito maior, o que otimiza a mão de obra", afirma.
Ele ressalta que a mudança também aumenta a necessidade de qualificação dos trabalhadores. "Mesmo assim, é um setor que emprega muito, cada dia mais qualificando melhor a mão de obra e oferecendo remuneração e valor agregado melhores."
Segundo Resende, o desempenho recente demonstra que a mineração vive uma fase de fortalecimento sustentada pelo aumento da capacidade produtiva.
Hoje já são mais de 10 milhões de toneladas produzidas por ano. Houve uma expansão muito importante da atividade mineral nos últimos anos."
O principal polo de mineração está concentrado em Corumbá e Ladário, onde ocorre a extração de minério de ferro e manganês. A atividade, entretanto, se espalha por outras regiões.
"O grande polo mineral do Estado fica entre Corumbá e Ladário, onde estão as extrações de minério de ferro e manganês. Mas o Estado tem mineração forte por inteiro", afirma Panucci.
Ele cita a produção de calcário agrícola em municípios como Bodoquena, Bela Vista, Jardim e Bonito, além da extração de pedra e areia destinada principalmente à construção civil.
Parte da produção ganha valor dentro de MS
Além da extração, Mato Grosso do Sul também avança no beneficiamento dos minerais. Segundo Panucci, praticamente todo o chamado beneficiamento primário, como a britagem do material, ocorre dentro do Estado. "O beneficiamento primário, que seria a britagem, é feito praticamente 100% no Estado."
No caso do minério de ferro, há ainda processamento industrial para produção de ferro-gusa. Panucci cita a Vetorial como exemplo dessa etapa da cadeia. Já minerais utilizados na construção civil e o calcário agrícola são beneficiados integralmente em Mato Grosso do Sul, segundo ele.
"Na construção civil, 100% da extração é beneficiada dentro do Estado. A indústria de calcário agrícola para agricultura estadual também é 100% beneficiada aqui."
Minério de ferro e manganês, contudo, ainda deixam Mato Grosso do Sul depois das etapas iniciais de processamento e seguem para outros países, onde passam por novas transformações industriais.
A dependência das exportações também deixa a atividade sujeita às oscilações do mercado internacional.
"Quando há uma atratividade melhor de preço, melhoram a aptidão e os resultados das indústrias, gerando mais investimento. O preço internacional é um balizador importante, já que grande parte do que produzimos é exportado", explica Panucci.
Ele pondera, porém, que parte da produção é consumida dentro do próprio Estado, especialmente por setores como agricultura e construção civil.
Logística ainda limita expansão
Mesmo com o crescimento da atividade, Panucci aponta a logística e a falta de trabalhadores qualificados entre os principais obstáculos para uma expansão maior.
"A ferrovia que ligava Corumbá ao porto está desativada, o que é um gargalo em termos de logística. A hidrovia no Rio Paraguai tem períodos de seca, e está se investindo em dragagem para melhorar a navegabilidade."
Segundo ele, as limitações ferroviárias e hidroviárias pesam especialmente sobre a região de Corumbá, onde está concentrada a produção destinada à exportação.
A infraestrutura logística, ferroviária e portuária tem sido um gargalo, assim como a mão de obra, que é um desafio não só na mineração, mas em nível nacional.
Apesar dos entraves, há novos investimentos previstos. Panucci afirma que somente em Corumbá o Grupo LHG anunciou R$ 5,5 bilhões para ampliar a produção de minério de ferro e manganês. Há ainda projetos menores em fases de pesquisa e licenciamento ambiental.
"Só em Corumbá, o grupo LHG anunciou R$ 5,5 bilhões de investimento para aumentar a produção de minério de ferro e manganês. Fora isso, há outros projetos menores em processo de licenciamento ambiental e de pesquisa."
Com reservas minerais consolidadas, crescimento da produção e novos investimentos previstos, a mineração amplia sua participação na economia de Mato Grosso do Sul. O avanço, porém, dependerá também da capacidade do Estado de superar gargalos de logística e mão de obra e de ampliar o beneficiamento da matéria-prima antes que ela deixe o território sul-mato-grossense.
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